sábado, 26 de dezembro de 2009

Igreja de S. Martinho de Mouros: Uma relíquia do românico / Um misto de fortaleza e casa de Deus*

A Igreja matriz de S. Martinho de Mouros, classificada como Monumento Nacional por decreto de 2 de Junho de 1922, constitui um dos mais importantes edifícios religiosos da arte românica portuguesa, um “estilo” artístico que se desenvolveu durante a Idade Média.

Fruto de uma época profundamente militarizada, em que se procurava consolidar o território nacional, este monumento constitui um verdadeiro templo fortificado, um misto de fortaleza e casa de Deus (PINTO, 1982), que se explica pela necessidade das populações cristãs se defenderem contra os ataques dos muçulmanos refugiados nas vizinhanças, no processo da reconquista cristã.

De facto, a Igreja de S. Martinho de Mouros abarca, num só edifício, as funções religiosas e militares, constituindo-se como uma das mais notáveis construções das igrejas-fortalezas do românico nacional, com a sua singular estrutura que passa das três naves mais altas da torre fronteira, abobadadas, à nave única com cobertura de madeira do corpo. O mais importante presbitério rural que, no seu estilo, se ergue em terras da Beira Alta, no dizer de Vergílio Correia (CORREIA, 1924).

Com um primeiro foral concedido, em 1057, por D. Fernando Magno de Leão a uma população maioritariamente formada por mouros, tal acabaria por influenciar o topónimo, que se manteve até aos nossos dias. D. Teresa confirmou este foral em 1111, tendo a Igreja sido construída entre a segunda metade do século XII e a primeira do século XIII, época em que o priorado é entregue aos Hospitalários (RODRIGUES, 1995). Com a morte de D. Guiomar Coutinho, último membro da Casa de Marialva, a que a igreja pertencia, o padroado foi transferido para a Universidade de Coimbra por D. João III, através do Breve CIRCA OFICII QUOD, do Papa Paulo III (1537, 14 Março).


Características

A fachada deste templo fortificado é marcada por um corpo rectangular, que lhe confere a sua individualidade, é suportada, interiormente por arcos de volta perfeita, que descarregam em pilares sustentados, exteriormente, por contrafortes.

No centro, um portal de arco apontado, com quatro arquivoltas, envolvidas por uma faixa axadrezada, e capitéis de ornatos zoomórficos e vegetalistas, debruado por uma banda de enxaquetado, com características semelhantes ao da Igreja de Santa Maria de Almacave, em Lamego.

Numa época em que poucos eram aqueles que liam (e esses eram essencialmente monges e clérigos) e raros eram os livros existentes, penosa e pacientemente copiados nos scriptoria dos mosteiros e conventos, importava fazer chegar a todo o crente, a todo o espaço da Cristandade, a palavra divina. E na impossibilidade de a dar à leitura, impunha-se encontrar um meio em que a forma e conteúdo vissem preservados a sua sacra dignidade e fossem, ao mesmo tempo, acessíveis a todos. “A imagem é a escrita dos iletrados”, escreveu Gregório I, o Grande, Papa de 590 a 604.

Suporte da mensagem, o templo afirmava-se sólido, imutável, simbolicamente eterno, frequentemente inexpugnável, atraindo a atenção dos crentes para a sua massa pétrea e, sobretudo, para a fachada e porta axial, onde se concentrava o mais importante acervo da decoração escultórica exterior (RODRIGUES, 1995).

Na fachada de S. Martinho de Mouros encontram-se outras particularidades, nomeadamente no lado esquerdo da porta de entrada, onde são visíveis dois sulcos sobre a parede. Trata-se da “vara” e do “côvado”, antigas medidas de comprimento equivalentes respectivamente a 110cm e a 70cm, que serviam de padrão legal aos comerciantes que aqui vinham, periodicamente, em dias de feira, aferir as suas medidas perante o povo (FURTADO, 1986, COSTA, 1979).

Transposta a “porta” exterior, intensamente iluminada, entra-se no interior de estudada escuridão, onde apenas algumas frestas lançam uma ténue luz sobre o espaço e a decoração interna, convidando ao recolhimento. O mistério é assim reforçado por um efeito cenográfico, contando com a lenta adaptação da vista do observador à penumbra, dificultando a total e imediata percepção do que o rodeia: começando no portal, continuando nos capitéis da nave e culminado no cruzeiro (a manifestação de Deus) que, pela sua luminosidade, eleva o olhar do crente.

Destaca-se a cobertura da capela-mor, que sobreviveu à intervenção de restauro purista dos anos 50 do séc. XX, formada por vinte e quatro caixotões de madeira policromada, de produção barroca, com temática hagiográfica, onde podemos identificar alguns santos jesuítas e cistercienses, São Jerónimo, o “Baptismo de Cristo” e os quatro Evangelistas.

A ladear o arco triunfal, no lado do Evangelho, existe uma pintura mural quinhentista representando São Martinho, o orago do templo, com vestes de bispo, com mitra e báculo, abençoando com a mão direita e, no lado da Epistola, em muito mau estado, uma figura feminina religiosa e um cavalo.


Intervenções

A Igreja de S. Martinho de Mouros contempla, a nível da sua arquitectura, vários estilos (românico, gótico, maneirista e barroco), fruto de intervenções sofridas ao longo dos séculos. No entanto, foi no século XX que diversas intervenções, pelo seu grau e dimensão, mutilaram a estrutura deste templo religioso, com consequências, em alguns casos, irreparáveis.

Para cumprir os propósitos da ditadura criou-se a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), cuja acção, embora frequentemente controversa, permitiu conservar grande parte dos monumentos religiosos e militares românicos que sobreviveram às vicissitudes do século XIX ou do início do século XX, com o anticlericalismo dominante da Primeira República.

A sua acção iniciou-se logo na primeira metade da década de 30, privilegiando o restauro de monumentos românicos, ao qual procuravam assegurar, por vezes a um preço demasiado elevado, a sua “pureza” original (DGEMN, 1937).

Os meados do século XX motivaram diversas intervenções neste edifício religioso, em consequência, nomeadamente, da derrocada do campanário em 1944 (18 de Novembro). Mais recentemente, em 2002, foram efectuadas obras de reparação e beneficiação geral das coberturas; intervenções de conservação da talha e estatuária dourada e policroma do retábulo da Epístola; reparação da estrutura da cobertura e substituição de telhas; limpeza dos paramentos exteriores, com refechamento de juntas e reparação e pintura de caixilharias e portas.

Hoje, a Igreja de S. Martinho de Mouros constitui um local obrigatório de passagem para quem quer conhecer o vasto e rico património medieval do Douro Sul, uma importante zona de passagem e de cruzamentos culturais.


ACESSO

EN 222, Km 113,2 para São Martinho de Mouros, a 1,1 Km


ENQUADRAMENTO:

Peri-urbano, isolado, a meia encosta, em superfície plana artificial, sustentado por muro alto, em alvenaria de granito, formando um adro, dentro do qual se encontra um cruzeiro de pedra, inserindo-se em zona de interesse paisagístico. A fachada principal confina com a via pública, pavimentada a cubos de granito e, junto, situa-se a residência paroquial.


CONSTRUÇÃO:

Século XII / XIII. O templo actual parece ter três momentos de construção: o primeiro corresponde ao corpo da nave; depois reconstruiu-se a capela-mor quadrangular, com o arco triunfal levemente abatido, e capitéis decorados; finalmente, ergueu-se a torre e da facada, acabada já no século XIII, como atesta o portal axial, apontado, com capitéis vegetalistas de decoração tardia. Nota-se uma forte influência da escultura bracarense nos capitéis de ousia, aparentados aos de Rates, revelando a capacidade de penetração da reforma beneditina até zonas bem mais longínquas da área de intervenção da diocese; e atestando, ao mesmo tempo, a relativa antiguidade desta fundação, seguramente iniciada ainda no século XII.


BIBLIOGRAFIA ESPECÍFICA PARA O ARTIGO:

CORREIA, 1924

CORREIA, Vergílio, Monumentos e Esculturas, Lisboa, 1924.

COSTA, 1979

COSTA, M. Gonçalves da, História do Bispado e da Cidade de Lamego – Paróquias e Conventos, vol. II, Lamego, 1979.

DGEMN, 1937

Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), n.º 10, Lisboa, 1937.

FURTADO, 1986

FURTADO, Maria Leonor de Moura, Igreja de São Martinho de Mouros, Lisboa, 1986/87.

PINTO, 1982

PINTO, Joaquim Caetano, Monografia do seu Concelho – Resende, Braga, 1982.

RODRIGUES, 1995

RODRIGUES, Jorge, O mundo românico (séc. XI - XIII), in História da Arte Portuguesa, (Dir. Paulo Pereira), vol. I, Lisboa, 1995.

VASCONCELOS, 1918

VASCONCELOS, Joaquim de, A Arte Românica em Portugal, Porto, 1918.


*Artigo da autoria do Dr. Paulo Sequeira, docente de história na Escola Secundária D. Egas Moniz, publicado no Jornal de Resende (edição de Novembro de 2009)

domingo, 29 de novembro de 2009

Casa do Concelho de Resende em Sintra organizou magusto*

Nota Pessoal

Por não conhecer ninguém da Casa de Resende aquando da minha deslocação a Sintra, em Junho passado, por ocasião da festa da cereja, tive de me servir de um exemplar do Jornal de Resende, segurado numa das mãos, como elemento de identificação a quem me foi buscar à estação de Portela de Sintra. Apesar disso, tal como agora, tive um acolhimento excepcional e um acompanhamento sempre caloroso por parte dos nossos conterrâneos. À despedida, em Junho, o presidente da direcção, Joaquim Alves Pinto, lançou-me o repto: “venha conviver connosco no próximo magusto; fica combinado”. Não podia declinar o convite.

Valeu a pena. Entre conterrâneos, moldados pelas mesmas raízes, configurações geográficas e elos de vizinhança e em cujos veios corre o mesmo “património”, foi deveras gratificante este dia de convívio.

Importa incrementar as relações da Câmara Municipal, das quinze Juntas de Freguesia e das várias associações concelhias com os resendenses da diáspora. A percepção que estes têm daquelas instituições relativamente ao seu grau de envolvimento para com aqueles que vivem e trabalham longe é de apatia e de distanciamento. A vinda frequente dos nossos conterrâneos à terra de origem, seleccionando-a como destino em datas significativas, em férias e até para usufruir da reforma, poderá representar um grande contributo para a animação e uma mais valia para o comércio e restauração. O que pressupõe que Resende se constitua e permaneça local de eleição, para além dos apelos de sangue que se vão eventualmente desvanecendo.


Dia de convívio

Centro e trinta resendenses, familiares e amigos participaram, no passado dia 8, domingo, no convívio com magusto, organizado pela Casa do Concelho de Resende em Sintra, que teve lugar na sede do Sporting Clube de Lourel, próximo da vila de Sintra. No sábado, foram confeccionados os bolos com artes e receitas herdadas e testadas em Resende. No domingo, logo de manhãzinha, começou a azáfama de preparação e confecção para o almoço, com vários voluntários em torno de panelas e outros utensílios e em tarefas de enfeite das mesas. Os participantes/comensais começaram a chegar a partir das 12h00, deparando-se logo à entrada com o projecto da futura sede, onde Manuel Admar Rosário ia explicando os espaços e valências previstas. Mais à frente estavam elementos da direcção a fazer o acolhimento, sendo depois encaminhados para o salão, onde os nossos conterrâneos iam pondo a conversa em dia. Às 13h00, deu-se início ao repasto. Esperava-nos uma entrada com broa e rodelas de chouriça, salpicão e presunto da nossa região, sopa de legumes, rojões com batata cozida e arroz, acompanhados com vinho de Anreade e sobremesa (composta de fruta, bolos e arroz doce) e café.

A seguir à refeição, durante a tarde, foi disponibilizada música apropriada por um animador de serviço para quem desejasse dar um pé de dança (e foram muitos). Cá fora, três voluntários tomavam conta das castanhas que iam sendo colocadas sobre um braseiro de dois assadores que, em lume brando, as iam tostando lentamente. Pelas 17h00, foram levadas para o salão, tendo sido devidamente saboreadas com jeropiga e água-pé até às tantas.


Castanhas: memórias e sabores

As castanhas foram alimento e pão das noites frias e dos serões das nossas aldeias e cúmplices de longas conversas à lareira. Impuseram o seu condão agregador e convivial em magustos entre os dias de Todos os Santos e S. Martinho, como herdeiros da celebração da abundância das colheitas, sobretudo do vinho. Aconchegando o estômago de ricos e pobres e aquecendo espíritos e corpos, são o melhor condimento para festejar a grandeza do gesto de quem foi capaz de repartir o seu próprio manto.

Todos adivinharam a origem das castanhas deste magusto. Vieram de Resende. De um souto antigo. Tal como outrora, apresentavam as mesmas texturas e formas, exalavam os mesmos cheiros, evidenciavam os mesmos sabores. Foram pretexto para os mais velhos recordarem o varejo dos castanheiros temporãos, a brita dos ouriços, o percurso diário da apanha pelos soutos e os carregos às costas pelas encostas do concelho. Muitos dos presentes tiveram de conciliar a apanha das castanhas com a frequência e deveres escolares, em contraste com os mais abastados que podiam contar com a colaboração das gentes (moças) da serra do Montemuro, em troca de alojamento frugal, parcas refeições e uma saca final de castanhas. Um dos presentes contou que, mandado ao souto em semana de invernia, resolveu desenvencilhar-se da situação enchendo a cesta durante três dias com castanhas anteriormente apanhadas e depositadas numa loja, o que lhe valeu uma sova quando os pais descobriram que a meda não crescia.

Este magusto foi mais um encontro com o presente e uma viagem por outros outonos e invernos. Douradas por dentro e escuras por fora, “quentes e boas”, os presentes foram sendo surpreendidos pelas diferenças oscilantes de sabores mais ou menos consistentes, quase farinhentos e ligeiramente agridoces, o que levava compulsivamente a provar ainda mais uma. A que souberam ainda estas castanhas assadas? A algo de muito diferente daquelas que são consumidas ritualmente a troco de uma moeda e entregues num cartucho, que nas cidades vão aquecendo as mãos e desprendendo fragrâncias na visita a montras, nas idas apressadas para casa, nas esperas do transporte ou acompanhando tensões de fim de dia ou emoções nas saídas de futebol. As deste magusto souberam ao cheiro da terra, às encostas de Resende, à nossa pregnância distintiva. À têmpera e perenidade dos castanheiros que marcam a nossa génese e paisagem.


Construção da sede da Casa do Concelho de Resende e papel de Manuel Rosário

Este convívio/magusto serviu para fazer o ponto da situação sobre a construção da futura sede da Casa do Concelho de Resende. A aprovação do respectivo projecto de arquitectura estará para breve, prevendo-se para a próxima Primavera o início da respectiva construção. Convém relembrar que a cedência de terreno para o efeito pela Câmara Municipal de Sintra aconteceu graças à intermediação e bons ofícios de Manuel Admar Rosário que, tal como a direcção e restantes órgãos sociais da Casa de Resende, tem colocado grande empenho na concretização deste sonho. Este nosso conterrâneo poderá ser considerado até um sócio benemérito desta associação de resendenses pela dedicação e pelas avultadas contribuições financeiras em prol da mesma. Convém referir que Manuel Rosário, nascido em 25-04-1944, em Santo Amaro de Anreade, é um empresário de sucesso na zona de Sintra, para onde veio com 17 anos. Começando por ser servente de trolha e carpintaria no concelho de Resende, criou várias empresas, designadamente nas áreas da construção de caixilharia de alumínio, transformação de vidro e bombas de gasolina, gerindo actualmente 6 empresas, com 70 trabalhadores, embora no passado já tivesse tido cerca de 200. Continua muito ligado a Anreade, onde possui duas pequenas quintas e onde se desloca com regularidade, contribuindo de forma generosa para algumas das instituições/associações do concelho de Resende.

A propósito da construção da sede, quem quiser colaborar poderá depositar o respectivo donativo na Caixa Geral de Depósitos (NIB: 003507860006276693048).


Próximos eventos

No próximo dia 6 de Dezembro, decorrerá a Festa de Natal, que incluirá um almoço, actuação do Grupo Coral da Casa do Concelho de Resende, distribuição de prendas às crianças, actuação de palhaços e lanche, podendo as inscrições ser efectuadas para os seguintes telefones: 967 069 271 e 219 235 234. Está também prevista uma festa na passagem de ano, que incluirá música com baile, intervalada por caldo verde, cacau quente, bolo-rei e champanhe. A época natalícia terminará com o cantar dos reis pelo Grupo Coral, no dia 6 de Janeiro, na Câmara Municipal de Sintra.


Endereço

Casa do Concelho de Resende

Estrada Nacional N.º 9 ao Km 17 – RAL – 2710 Sintra

Telef. 219 233 214 Fax: 219 235 369

Apontamento escrito por Marinho Borges e publicado no número de Novembro de 2009 do Jornal de Resende

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Padre Agostinho Sousa

Quem teve o privilégio de o conhecer nunca mais o esquecerá.
Homem de doce serenidade, de diálogo, de profunda inteligência e profunda Cultura, o nosso querido Padre Agostinho de Sousa adormeceu nos braços do Senhor pelas nove horas do dia 21 de Outubro.
Tinha 80 anos e nascera em Magueija, a pequena aldeia do concelho de Lamego que nunca esqueceu, apesar da dedicação de toda uma vida aos mais abandonados do Marrere e da Paróquia de Santa Rita de Caramaja, a 40 km de Nampula, de difícil acesso sobretudo na época das chuvas.
Após ter frequentado os seminários da Boa Nova em Tomar, Cernache do Bonjardim e Cucujães, foi ordenado sacerdote em 1955. Ocupou os cargos de professor de Português e Matemática, Prefeito e Vice-reitor em Cernache até 1961, ano da partida para Moçambique. Ali foi professor do Colégio diocesano e professor, vice-reitor e reitor do Seminário diocesano de Nossa Senhora de Fátima e Vigário Geral por duas décadas, interrompidas por um intervalo em Portugal, de 1986 a 1991, como Membro do Conselho Geral da Sociedade Missionária e Reitor do Seminário de Cucujães.
Por ele passaram momentos difíceis antes e depois da independência do País, os flagelos da guerra e da fome, que ultrapassou decerto com imenso sacrifício, mas sem um lamento. Aconselhou políticos desavindos que lhe pediam conselhos, missionários e bispos. Trabalhou incansavelmente em prol dos mais necessitados e pelas suas mãos se ergueram uma escola e uma maternidade.
Quando regressou há dois anos a Valadares, ao seminário da Ordem da Boa Nova, vinha muito doente com um grave problema cardíaco. Sofreu uma intervenção cirúrgica mas outra enfermidade, que lhe seria fatal, não lhe permitiu o regresso a Nampula com que tanto sonhara.
Visitámo-lo no Hospital Universitário de Coimbra e encontrámos um homem de sorriso terno, de bom humor inalterável, a brincar com o seu próprio estado de saúde, porque o que verdadeiramente o preocupava eram a reduzida esperança de vida em Moçambique, os inúmeros órfãos vítimas de Sida. Depois, encantado, mirava a flor que lhe tínhamos oferecido e dizia “É nisto que nos transformaremos todos um dia…”
Ainda festejou com o maior entusiasmo os seus 80 anos juntamente com o centenário do tio, na aldeia onde decorrera a sua infância.
Estivemos juntos pela última vez há dois meses, quando apareceu de surpresa em Magueija para mostrar a um casal amigo e ao padre André Marcos, seu velho companheiro de Missão em Nampula, a linda casa de granito onde nascera, magnificamente reparada pela sua irmã Bernardete Sousa Figueiredo.
Distribuiu por todos a água fresquinha que jorra da fonte, “o vinho da minha terra”, como lhe chamou, sempre sorridente, porque guardava com ele o segredo da felicidade das coisas magnificamente simples e belas.
Pelo afilhado que tem o seu nome, mas que todos tratamos ternamente por Tico, soubemos que piorara muito e fora internado no hospital de São João, no Porto.
Os últimos dias de vida passou-os rezando a Avé Maria, num testemunho de Fé inabalável, sempre acompanhado pelo afilhado que lhe dispensou uma profunda e comovedora dedicação.
Depois, a 21 de Outubro a família mais chegada partiu para o seminário de Valadares, a “sua casa”, como lhe chamou o reitor padre Zacarias. Toda a Sociedade Missionária da Boa Nova nos recebeu com um abraço fraterno, que comovidamente agradecemos.
Rezou-se uma missa de corpo presente às 19h30, em que o padre Anselmo Borges recordou com emoção o grande amigo e companheiro. Depois caiu a noite e um imenso temporal varreu a quinta, abalando árvores e descobrindo sombras.
De manhã, pelas 9h30, realizou-se uma missa solene com a presença de 30 padres e o bispo auxiliar de Braga, D. António Couto.
O funeral seguiu então para Magueija, onde se celebraram duas Eucaristias: às 15h30 na capelinha de Santo António, que o padre Agostinho tanto amava, e às 17h na igreja de Santiago, em que participaram o bispo de Lamego, D. Jacinto Botelho, o Vigário Geral da Diocese, o Superior Geral da Ordem dos Missionários da Boa Nova, o padre Hermínio Lopes e muitos colegas de partida para África e Brasil.
A Presidente da Junta de Freguesia de Magueija, Ex.ma Senhora D.ª Liliana Monteiro, esteve sempre presente nas celebrações, em seu nome e do Ex.mo Senhor Presidente da Câmara de Lamego, Engenheiro Francisco Lopes, o que agradecemos.
Já anoitecia quando o corpo foi depositado no pequeno cemitério da aldeia, junto à campa dos pais e do seu querido irmão Aristides, na maior simplicidade, como pedira.
O nosso querido Tico fora incansável a orientar os acontecimentos, proporcionando a todos refeições quentes e o bem-estar possível, cumprindo os desejos do padrinho que tão carinhosamente amparara nos últimos momentos.
E em Valadares, duas rolas que o padre Agostinho acolhera com imenso amor no seu quartinho esperavam, olhando as árvores por entre as grades da gaiola.
Então um padre aproximou-se, abriu-lhes devagarinho a porta e, conforme lhe fora pedido, lançou-as ao céu.
*Texto de Teresa Henrique, sobrinha do P. Agostinho Sousa

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Contos Serranos e Ribeirinhos - Um livro de José Oliveira*

Vai já longe o tempo em que a rádio não se ouvia e a televisão era um sonho imaginário.
As noites na aldeia criavam encanto à volta da lareira e o sabor das conversas vestiam as cores de novelas da vida numa repetição de factos e histórias que deliciavam a juventude e passavam a futuro o passado real ou imaginado. À volta da fogueira que os chamiços acendiam e as tocas de árvores velhas alimentavam, ouviam-se dos pais atentos e avós sabedores as histórias da vida contada e recontada em formas e datas diferentes com um espírito sempre novo e versão sempre actual.
Era a trovoada que zurzia, o lobo que invadia a encosta, ou o lobisomem que atormentava a população ou bruxa que voava.
Enquanto a brasa vivia, as mulheres fiavam e o vento soprava, à volta da fogueira evoluía o serão familiar.
Ocupando o tempo a contar o dia a dia, pais e avós transmitiam o passado, liam a biblioteca do saber utilizando a comunicação oral, transmitindo o passado e dando vida aos feitos e factos.
O novo ritmo de vida, as novelas e telenovelas, o novo modo de ser e saber pela rádio e televisão, alterou o sistema
O mundo mudou e os serões na vida da aldeia também.
Esquecer este passado e deixar no arquivo morto da história esta realidade seria grave prejuízo para a cultura e conhecimento geral dos povos.
De louvar e aplaudir são pois a iniciativas tendentes à recuperação e manutenção em suporte escrito ou visual da vida anterior à tecnologia actual que fez da terra uma normal aldeia sem distâncias onde tudo o que é e há são reais e actuais ao mesmo tempo em todo o lado.
Tão longo intróito só para dizer que os - «Contos Serranos e Ribeirinhos» de José Duarte Oliveira, dispostos em livro, são um precioso repositório dessas recolhas, em terminologia suave e compreensiva, atenta e perspicaz.
Trazendo à memória factos e histórias da vida vivida ou contada nos ambientes familiares de aldeias serranas ou povoados ribeirinhos da mesma serra, o autor recupera dos escaninhos da memória, transcrevendo ou recriando, cenas reais da vida real à maneira de contos, sui generis contados, partindo de uma introdução ambiental à volta dos costumes e do tema, desenvolvendo a seguir o drama em bela forma exposta, para no momento mais alto da curiosidade descrita, encerrar o tema com chave poética em forma de soneto, liberto do rigor belo da métrica e rima.
São 16 descrições em 150 páginas de leitura cativante que nos levam às memórias da vida, desde Castelo de Paiva a Cinfães e de Resende a Lamego terras onde a vida do autor encontrou e deixou rastos de passado e memória de futuro, numa área e circuito impostos pelas águas do Douro e limites do Montemuro.
Com esta obra focalizada essencialmente à volta de Cinfães e cujas receitas de 1ª edição revertem a favor de uma fundação internacional de bem-fazer, o autor leva-nos a viajar pelas realidades da vida que o tempo já levou, deixando na mente a mensagem de um alguém realista mas «crente nos caminhos do progresso da humanidade de cujo projecto quer ser actor…»
São contos e lendas em recolha parcial e possível que a pouco e pouco o tempo destruiria na rapidez da sua passagem e que só deste modo alguma coisa permanecerá para o futuro liberto da inexistência.
Quantas lendas, contos, orações, crenças e crendices continuam ainda com alguma existência, mas à beira do seu fim nas mesmas terras desta terra, desde o Couto a Ervilhais, de Sogueire à Panchorra, de Boassas a Bigorne ou de Samodães a Lalim !
Há ainda por muitos lados em lugares e lugarejos, gigantes a combater, lobos a referir, lobisomens a desvendar, almas penadas a remir, marcos maninhos a repor, bruxas a descobrir ou medos a esconjurar!
Aguardam-se mais livros, destes, como este ou semelhantes, para manter em forma de letra a tradição rica que desaparece por não ser contada nem escrita…e quando morrerem os já poucos que dela falam, não mais dela se falará, porque sem enterro e luto, ficam, sem darmos conta, juntos na mesma sepultura a que na história se chama esquecimento.
E, se já não voltam -( lamento meu que todos perdi e deles nada gravei)- o António de Cristelo para nos falar do lobos , o Manuel de S. Pedro para lembrar os lobisomens, o António de Passos para as histórias dos roubos e assaltos, a Ana da Quintã para dizer do volfrâmio, o Costa de Cimo da Vila para referir partilhas antigas e os marcos desviados, ou meu pai para falar da monarquia e das guerras liberais, outros porém noutras terras viverão ainda e haja quem atento não perca o que eles ainda poderão contar para memória futura como riqueza do passado.
Do muito que já deu à comunidade através da sua vida profissional dedicada ao ensino, de escritos vários em vários jornais, das comunicações na rádio sobre educação e juventude, ou do livro « o Mundo das Crianças», muito a comunidade continua a esperar do José Oliveira que tem para já e agora em parto normal o nascimento da «Universidade Sénior de Cinfães » , desenvolvida a partir da sua actividade como presidente do Rotary Club de Cinfães, no ano rotário 2009-2010.
Como o poeta e com saudade eu sonho:
- «oh pião da minha infância vem de novo à minha mão!»
*Apontamento do Dr. Adão Sequeira, escrito para "A Voz de Lamego" (Outubro de 2009) sobre o livro em epígrafe.

sábado, 17 de outubro de 2009

Propaganda eleitoral das "autárquicas 2009"











Para memória futura.
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Documentário de 1945 sobre Caldas de Aregos*

Época d’oiro de Caldas de Aregos
Como bem documentam alguns excertos do Primeiro de Janeiro que ilustram e decoram o bar “Aquas Calidas”, as Termas de Caldas de Aregos eram, na década de trinta do século passado, uma referência a nível nacional como centro de repouso, de prevenção e cura de várias doenças e um pólo de grande animação social. Na época de Verão, Caldas de Aregos era uma espécie de Estoril do norte para onde convergiam as elites de então.
Todo este dinamismo se deveu à acção de Manuel Pinto Monteiro, natural de Minhães, que a partir da década de 20 assumiu a exploração do Hotel do Parque e do balneário, tendo tido um papel fundamental no desenvolvimento e reconhecimento da estância termal, pois fundou o Hotel Portugal e a Pensão Palace, conseguiu a paragem dos comboios rápidos na estação de Aregos, esteve na origem da criação da estação de Correios e Telégrafos e preparou o terreno para a construção de um novo balneário.
Substituiu-o Manuel Pinto Espanhol, industrial e grande comerciante de vinhos na Régua e em Vila Nova de Gaia, que entre 1944 e 1945 construiu um novo balneário. Constituía um grande equipamento ao gosto monumental do Estado Novo, que se desenvolvia em forma de L, com dois pisos (no piso térreo, encontrava-se a buvete num átrio amplo, os consultórios médicos e os tratamentos ORL; no piso superior estavam os banhos e duches). As Caldas tinham então uma frequência de 2 000 aquistas/ano e um dos melhores balneários da Península Ibérica, revestido de mármore, com acabamentos de luxo e com toda a aparelhagem indispensável para a completa utilização das águas.

Novo balneário e potencialidades de Caldas de Aregos e da região em documentário cinematográfico
Nunca foi exibido e divulgado no concelho de Resende, mas foi passado inúmeras vezes nas diversas salas do cinema do país, tendo sido estreado no Politeama de Lisboa, em 16 de Janeiro de 1946. Até há pouco tempo não se sabia da sua existência, repousando tranquilamente nos arquivos da Cinemateca Nacional.
Acabado de construir, é natural que a Junta de Turismo das Caldas de Aregos e a Companhia das Águas das Caldas de Aregos não quisessem perder a oportunidade de promover e divulgar um do mais modernos e funcionais balneários da Península Ibérica, tarefa que se justificava numa época de crise, no fim da 2.ª Guerra Mundial, em que importava restabelecer a confiança, dinamizando os projectos existentes.
Além de destacar as virtualidades das “águas milagrosas de Caldas de Aregos” e de descrever a arquitectura, as instalações, os vários equipamentos do balneário e a intensa animação social, o documentário denota a preocupação de potenciar a riqueza das termas no âmbito do contexto da beleza paisagística do concelho e da região e do património cultural envolvente. Destaca, por exemplo, os cenários do Penedo de S. João, das encostas do Douro e do grande escultor que é o rio e as marcas distintivas das igrejas de Cárquere e Barrô, que convida a visitar. A dada altura, é referido que, por estas bandas, os carros andam devagar, não devido à existência das muitas curvas “apertadas” das estradas, mas antes pelo imperativo de se usufruir com “enlevo” as majestosas belezas circundantes. Chama também a atenção para os sortilégios dos ares e dos parques das Caldas de Aregos, pois pares de namorados que por aqui passeiem “nunca deixarão de andar juntos pela vida fora”.

Paulo Sequeira e Pedro Ferreira na origem do achado
Esta preciosidade, que documenta e caracteriza uma época tão relevante das Caldas de Aregos e do concelho de Resende, encontra-se entre nós para ser visto e desfrutado, indo integrar os conteúdos que a Câmara Municipal irá disponibilizar no ecrã colocado no Jardim 25 de Abril. Foram as pesquisas efectuadas por Paulo Sequeira e Pedro Ferreira para o livro “Douro-Memórias das Caldas de Aregos” que levaram ao conhecimento da existência do documentário. E não descansaram enquanto não foram ao seu encalço, encontrando-o à guarda da Cinemateca Nacional, cujos negativos originais, em suporte de nitrato de prata, se achavam em avançado estado de deterioração. A sua preservação e conversão em suporte fílmico contemporâneo, vulgo DVD, implicava custos avultados, apesar de se tratar de um documentário com apenas cerca de 10 minutos (mas só os negativos totalizavam 258 metros!!!). Tendo em conta os objectivos culturais do Clube Náutico das Caldas de Aregos, esta associação chegou a um acordo com a Cinemateca Nacional, através do qual ambas as instituições repartiram os custos da sua recuperação.
Felizmente, o documentário encontra-se entre nós com um pouco de sorte à mistura, diga-se de passagem, uma vez que alguns destes documentários, feitos em grande número na época, foram destruídos de modo a reaproveitar o nitrato de prata, posteriormente vendido a países como a Alemanha para alimentar a sua máquina da guerra.
Refira-se que a primeira legislação para o sector do cinema da Ditadura Nacional foi publicada em Diário de Governo, a 6 de Maio de 1927. O decreto n.º 13564 determinava, no artigo 136º: «Torna-se obrigatória, em todos os espectáculos cinematográficos, a exibição duma película de indústria portuguesa com um mínimo de 100 metros, que deverá ser mudada todas as semanas, e, sempre que seja possível, apresentada alternadamente, de paisagem e de argumento e interpretação portuguesa».
Era a lei dos cem metros, um diploma proteccionista que tinha por objectivo auxiliar e desenvolver a nossa precária indústria fílmica, contribuindo para tornar conhecido o país, através dum sistemático registo de imagens e respectiva projecção.
Armando de Miranda (
Portimão, 16 de Novembro de 1904Brasil, 1971), algarvio de gema, destacado jornalista da época, aproveitaria esta lei para se lançar na realização de documentários, a exibir antes do filme de fundo de cada sessão. Na década de 40, época de ouro do cinema português, é já um dos mais destacados cineastas portugueses, destacando-se na realização de filmes como “José do Telhado” (1945), saga popular e grande êxito de bilheteira, e “Capas Negras” (1947), que lançaria Amália Rodrigues nas lides cinematográficas.

Apresentação do documentário no Pavilhão Multiusos de Caldas de Aregos
A sessão de apresentação e visionamento do documentário teve lugar no passado dia 7 de Agosto. Pessoas de várias gerações, incluindo várias contemporâneas à época e algumas aquistas/frequentadoras das termas actuais, acorreram em grande número a este evento tão relevante para a história de Resende.
O presidente do Clube Náutico das Caldas de Aregos, Jorge Cardoso, congratulou-se pelo papel que a associação que dirige teve na recuperação do documentário. O presidente da Câmara Municipal, António Borges, relatou algumas vivências de infância relacionadas com as Termas de Caldas de Aregos, referindo transportar memórias de um escorrega aí existente, do hotel com muita música e de uma grande animação social. “À época, conseguiu-se fazer um grande projecto e elevar as termas a um nível de grande ambição, como tereis ocasião de ver a seguir. A nós pertence-nos honrar esse caminho e esse passado e mostrar a mesma ambição. Aqui está um dos grandes pilares de desenvolvimento e de esperança para o concelho de Resende”, referiu no seu breve improviso.
Paulo Sequeira, um dos heróis deste achado (em conjunto com Pedro Ferreira, que não pôde estar presente na sessão), deu a conhecer as diligências para resgatar o documentário dos arquivos da Cinemateca Nacional e levar a cabo a respectiva recuperação e fez o enquadramento histórico do mesmo, conforme descrição feita ao longo deste apontamento, que seguiu de perto a sua prelecção. Terminou, agradecendo o apoio recebido da actual e da anterior direcção do Clube Náutico das Caldas de Aregos, nas pessoas de Jorge Cardoso e Fernando Almeida, respectivamente.
Ao longo do visionamento, a emoção apoderou-se de muitos dos presentes, ao evocarem pessoas, locais e situações com as quais conviveram e se estavam de novo a confrontar. A satisfação que expressavam realçou quão verdadeiro é o ditado “Recordar é viver”.
*Apontamento de autoria de Marinho Borges, publicado no Jornal de Resende (número de Agosto de 2009)

Discurso de apresentação do documentário de 1945 sobre Caldas de Aregos*

Há 64 anos um dos maiores realizadores portugueses de então produziu um documentário sobre as Caldas de Aregos. Estávamos em 1945, no final da 2.ª Guerra Mundial, e, apesar da crise mundial, nas Caldas de Aregos acabara de se construir um moderno e funcional balneário termal, um dos melhores da Península Ibérica. Este documentário acabaria por nunca ser exibido e divulgado no concelho de Resende. E porquê? Porque a sua função era promover e divulgar as Caldas de Aregos, o concelho de Resende e o próprio Douro, noutras regiões do País, nomeadamente na capital.
Hoje regressa ao local de origem para ser visto e para documentar uma época importante da história do nosso concelho, na qual as Caldas de Aregos e as suas Termas eram uma referência, um local de excelência, no Douro, no país e por que não dizê-lo a nível internacional.
No âmbito das pesquisas efectuadas para o livro “Douro – Memórias das Caldas de Aregos” eu e o Pedro Ferreira tivemos conhecimento da existência deste documentário. De imediato, procurámos o seu rasto e encontrámo-lo na Cinemateca Nacional onde os negativos originais, em suporte de nitrato de prata, se encontravam em avançado estado de deterioração. A sua preservação e conversão em suporte fílmico contemporâneo, vulgo DVD, implicava custos avultados, apesar de se tratar de um documentário com apenas cerca de 10 minutos (só os negativos totalizavam 258 metros!!!). Chegámos a um acordo com a Cinemateca Nacional através do qual o Clube Náutico das Caldas de Aregos e aquela Instituição repartiam os custos da sua recuperação.
(Não quero deixar passar esta oportunidade para, num momento como este, referir que na ocasião a Câmara Municipal de Resende, através do Senhor Presidente António Borges, o Padre Joaquim Correia Duarte, o Sr. Jorge Saraiva e o Dr.º Marinho Borges disponibilizaram-se para o comparticipar financeiramente. Não o aceitamos. Não por uma razão de sobranceria mas porque entendemos que as colectividades devem, sempre que possível, financiar as suas próprias actividades e deixar de recorrer ao subsídio para tudo e mais alguma coisa. O Clube Náutico das Caldas de Aregos, com o apoio da Câmara Municipal de Resende ao livro “Douro Memórias das Caldas de Aregos”, encontrou essa disponibilidade financeira, mas agradece a todos aqueles que se mostraram disponíveis em ajudar-nos.)
O documentário encontra-se entre nós. Com um pouco de sorte à mistura, diga-se de passagem, uma vez que alguns destes documentários, feitos em grande número na época, foram destruídos de modo a aproveitar o nitrato de prata, posteriormente vendido a países como a Alemanha para alimentar a sua máquina da guerra.
A primeira legislação para o sector do cinema da Ditadura Nacional foi publicada em Diário de Governo, a 6 de Maio de 1927. O decreto n.º 13564 determinava, no artigo 136º: «Torna-se obrigatória, em todos os espectáculos cinematográficos, a exibição duma película de indústria portuguesa com um mínimo de 100 metros, que deverá ser mudada todas as semanas, e, sempre que seja possível, apresentada alternadamente, de paisagem e de argumento e interpretação portuguesa».
Era a lei dos cem metros, um diploma proteccionista que tinha por objectivo auxiliar e desenvolver a nossa precária indústria fílmica; tornar conhecido o país, através dum sistemático registo de imagens e respectiva projecção.
Armando de Miranda (Portimão, 16 de Novembro de 1904Brasil, 1971), algarvio de gema, destacado jornalista da época, aproveitaria esta lei para se lançar na realização de documentários, a exibir antes do filme de fundo de cada sessão. Na década de 40, época de ouro do cinema português, é já um dos mais destacados cineastas portugueses, destacando-se na realização de filmes como “José do Telhado” (1945), saga popular e grande êxito de bilheteira, e “Capas Negras” (1947), que lançaria Amália Rodrigues nas lides cinematográficas.
E é precisamente nesta época que é estreado no Politeama, em Lisboa, em 16 de Janeiro de 1946 o documentário “Caldas de Aregos – 1945”, de Armando de Miranda, um exclusivo Triunfo para Produtores Associados, antecedendo o filme “José do Telhado” do mesmo realizador.
Não será de estranhar que a Junta de Turismo das Caldas de Aregos e a Companhia das Águas das Caldas de Aregos quisessem promover e divulgar o novo balneário termal, com o projecto de construção aprovado em 1944 e concluído e equipado em 1946. Era uma construção ao gosto monumental do Estado Novo, que se desenvolvia em forma de L, com dois piso – no piso térreo encontrava-se a buvete num átrio amplo, os consultórios médicos e as instalações para os tratamentos otorrinolarinológicos, inalações individuais e colectivas e irrigações nasais com as respectivas salas de abafo e aplicações de lamas, no piso superior estavam os banhos de imersão e duches. As Caldas tinham então uma frequência de 2000 aquistas/ano.
É isto que o documentário reproduz, mas não só… outros locais do concelho, como o Penedo de S. João, Cárquere, Barrô, e da região são retratados como iremos ter oportunidade de ver e ouvir.
Para concluir um agradecimento especial, meu e do Pedro Ferreira, às direcções do Clube Náutico das Caldas de Aregos: à anterior, dirigida por Fernando Almeida, e a actual, dirigida por Jorge Cardoso.
*Proferido pelo Dr. Paulo Sequeira, em 07-08-2009, no Pavilhão Multiusos de Caldas de Aregos
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